quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Israel e Hamas anunciam cessar-fogo permanente



TEL AVIV — O anúncio de um acordo de cessar-fogo duradouro entre Israel e o grupo islâmico Hamas, da Faixa de Gaza, costurado no Cairo por moderadores egípcios, pegou de surpresa cidadãos dos dois lados da fronteira 50 dias depois do começo do mais recente embate entre israelenses e o Hamas, que deixou 2.140 mortos do lado palestino e 70, do israelense. 

A reação também foi diametralmente oposta em meio a especulações sobre quem “ganhou” e quem “perdeu” com o acordo. Enquanto em Gaza a população foi às ruas comemorar o que considerou ser uma “vitória”, em Israel o clima era de desconfiança e amargura em relação à trégua, anunciada menos de uma hora depois da morte de dois civis atingido por uma saraivada de morteiros num kibutz (cooperativa) a menos de 1km da fronteira.


Foi o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, quem se apressou a fazer o anúncio. De Ramallah, na Cisjordânia, Abbas fez um discurso transmitido ao vivo pela TV às 18h40 (12h40 horário de Brasília).


— Quero anunciar que a direção palestina respondeu ao apelo dos irmãos egípcios para adotar um cessar-fogo geral e permanente a começar às 19h pelo relógio do Cairo e da Palestina (13h em Brasília) — afirmou Abbas, que se referiu também a um segundo estágio de negociações, que começaria em um mês. — Esperamos que isso aconteça ao mesmo tempo em que as demandas e necessidades do nosso povo de Gaza sejam cumpridas, com o fornecimento de comida e equipamento médico e a reconstrução de tudo o que foi destruído pela agressão (de Israel).


Em seguida, começaram as comemorações nas ruas de Gaza, que incluíram distribuição de doces e tiros para o alto. Milhares de pessoas levaram bandeiras do Hamas (verdes) e do grupo moderado Fatah (amarelas) gritando, entre outros bordões, “A resistência venceu!”. Alguns dos principais líderes do Hamas, que há mais de cinco semanas se escondiam em abrigos antiaéreos, reapareceram, entre eles o ex-chanceler Mahmoud Al-Zahar. Mas o número 1 do grupo, Ismail Hanyiah, só se manifestou via Twitter, agradecendo à Turquia e ao Qatar pela ajuda ao Hamas. Os mais conhecidos porta-vozes do grupo improvisaram uma entrevista coletiva na Cidade de Gaza afirmando que a trégua é “um avanço” para a organização.


— Nossa vitória pavimenta o caminho, com a ajuda de Alá, para que da próxima vez libertemos Jerusalém e toda a terra da Palestina! — disse Sami Abu Zuhri.


O caminho para o cessar-fogo foi aberto depois que um dos líderes político do Hamas no Egito, Mussa Abu Marzuk, viajou ao Qatar para conversar pessoalmente com seu chefe, o principal representante do Hamas no exterior, Khaled Meshal, exilado em Doha. Era Meshal que bloqueava a assinatura de uma trégua desde o fracasso do último cessar-fogo, no dia 19 de agosto. Dessa vez, Meshal deu sinal verde para a proposta egípcia, que inclui o alívio no bloqueio econômico do Egito e de Israel a Gaza e o aumento da área de pesca da região. O alívio econômico será realizado através da abertura dos postos de fronteira, principalmente o de Rafah (Egito) e o de Erez (Israel), para a entrada de ajuda humanitária e material de construção.


O acordo também inclui o compromisso de palestinos e israelenses de que, daqui a um mês, as delegações dos dois lados vão se reencontrar no Cairo para discutir outras três exigências do Hamas (que Israel se recusou a aceitar, até agora): a construção de um porto marítimo, de um aeroporto e a libertação dos 50 membros do Hamas detidos por Israel em junho depois de terem sido libertados em 2011 na troca de prisioneiros pelo soldado israelense Gilad Shalit.


Para alguns, o Hamas saiu realmente perdendo porque não conseguiu seus principais objetivos: o porto e a libertação de presos. Fora isso, o grupo não conseguiu dinheiro para pagar os salários de 40 mil servidores públicos de Gaza que não recebem desde abril. É o que acredita o ex-assessor de segurança nacional, Yaakov Amidror.


— O Hamas nos deu 50 dias para que pudéssemos destruir seus arsenais e sua capacidade de produzir armamento. A quantidade de foguetes que sobrou é muito pequena e reconstruir sua infraestrutura levará muito tempo — disse Amidror.

Mas, para o comentarista Alon Ben David, do canal 10 da TV israelense, o Hamas tem motivos para comemorar, apesar de tudo – clima que reflete o sentimento geral entre os israelenses, que não saíram às ruas para nenhuma comemoração. Muitos acreditam que o acordo seria uma “rendição ao terrorismo”.


— Foi um conflito no qual uma organização não muito grande como o Hamas faz frente ao maior exército do Oriente Médio por 50 dias, não deu para trás, não mudou seus valores mesmo levando pancada atrás de pancada e continuou a lutar. O Hamas conseguiu demonstrar habilidades sem precedentes e foi ele quem dirigiu politicamente o conflito. Israel foi arrastado e só reagiu – disse Alon Ben David.


O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deu boas-vindas à trégua e disse que violá-la seria “totalmente irresponsável”. Os Estados Unidos também saudaram o acordo e pediram aos dois lados que honrem o compromisso: “Apelamos para que os lados cumpram totalmente e completamente com os termos, e esperamos muito que esse cessar-fogo prove ser durável e sustentável”, disse a porta-voz do Departamento de Estado americano, Jen Psaki.


Fonte: O Globo.

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