quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Blocos Econômicos: MERCOSUL



O Mercosul (Mercado Comum do Sul) é uma organização internacional que tem por objetivo promover a integração regional econômica entre os países do Cone Sul (região específica recentemente definida, que faz referência ao formato cônico do sul da América do Sul, onde encontram-se os países que compõem a Organização). Os membros atuais são: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela.

Essa região possuí um grande histórico de disputas, principalmente entre Brasil e Argentina pela hegemonia. No entanto, a partir do fim da década de 1970, algumas mudanças nas políticas externas dos países possibilitaram o início da cooperação. Tais mudanças se deram durante o período militar vigente na região, e após a transição democrática, o projeto (inicialmente apenas econômico) também adotou aspectos políticos e sociais.

Primeiramente, o projeto do Mercosul partiu de uma iniciativa bilateral entre Brasil e Argentina, em 1988, firmou-se o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento, que visava um espaço econômico comum. Em 1990, foi assinada a Declaração de Buenos Aires, que cumpriu tal objetivo e criou o Grupo Mercado Comum. Em 1991, Uruguai e Paraguai aderem ao Grupo ao assinarem o Tratado de Assunção, dando início à etapa quadrilateral do projeto. O ordenamento jurídico do Mercosul só foi estabelecido em 1994, com o Protocolo de Ouro Preto, que forneceu personalidade jurídica ao bloco, isto é, possibilitando que a Organização se tornasse sujeito internacional.

O Mercosul dá grande importância ao caráter democrático da política interna dos Estados-membros, incorporada oficialmente ao Tratado de Assunção pelo Protocolo de Ushuaia, em 1998, conhecida como “cláusula democrática”. Isto deve ser atribuído ao fato de que todos os seus membros sofreram ditaduras militares em um período muito próximo à sua criação. Porém, a “cláusula democrática” não verifica profundamente a “qualidade” das democracias, tendo em vista o Golpe do Paraguai e a entrada da Venezuela ao bloco (2012).

A Organização também permite a adesão de qualquer membro da ALADI (Associação Latino-Americana de Integração), sujeita à aprovação por consenso dos membros. O Chile, a Bolívia e o Peru tornaram-se membros associados (os dois primeiros em 1996, e o terceiro em 2003), permitindo que esses países participem das reuniões do Mercosul como membros observadores. Para tanto, o país observador deve ser membro da ALADI e ter um acordo de livre-comércio com o bloco.

A estrutura institucional do Mercosul possui caráter intergovernamental, não apresentando nenhuma instituição supranacional e estabelecendo o consenso para a aprovação das decisões em qualquer órgão da organização, com a presença de todos os membros. As normas produzidas pelo Mercosul apenas adquirem validade após sua incorporação aos ordenamentos jurídicos nacionais. Por fim, as decisões, embora tenham caráter obrigatório, são determinações políticas e não normas jurídicas.

Há uma grande assimetria de poder entre o Brasil e os demais integrantes, o que é um dos principais motivos da rejeição da cessão parcial de soberania nessa organização. No entanto, isso também levanta questões sobre o poder de decisão dos países “menores” (Uruguai, Paraguai e Venezuela) sobre os “maiores” (Argentina e Brasil) no que se refere ao impacto às economias e às populações desses países.

O sucesso inicial do Mercosul foi além de todas as expectativas. No plano internacional, teve reconhecimento imediato e aumentou significativamente os fluxos comerciais da região. Já em 2005, foi implementada a Tarifa Externa Comum, tornando o bloco de uma área de livre-comércio em uma união aduaneira. Porém, a Tarifa, assim como o regime tarifário intrabloco, possui muitas exceções, o que dificulta a perseguição dos objetivos econômicos iniciais do Mercosul e fazendo com que seja considerado uma união aduaneira imperfeita.

No entanto, apesar desse sucesso, o Mercosul passou por uma grande crise no fim da década de 1990, devido à adoção de medidas unilaterais por parte dos Estados-membros, em áreas de impacto mútuo. Medidas como a desvalorização do real em 1999, e a modificação das taxas argentinas sobre bens de capital e consumo em 2001, acabaram minando a credibilidade da integração. Tais medidas unilaterais afetaram o Uruguai e o Paraguai de forma profunda e essas decisões, ao não serem discutidas no âmbito do Mercosul antes de serem adotadas pelos referidos países, colocam em questão a importância atribuída à cooperação, principalmente em momentos de crise. Além disso, a organização não pode ser considerada um ator internacional independente de seus membros, já que sua própria estrutura jurídico-institucional restringe sua autonomia. Não obstante, quando o Brasil superou a sua crise interna, forneceu a maior parte dos investimentos do Mercosul, de forma a sustentar a Argentina.

 Em 2003, os governos brasileiro e argentino adotaram a iniciativa de relançar o processo de integração, os governos Kirchner e Lula direcionaram as políticas do Mercosul para um viés mais social e político, afastando a Organização ainda mais de seus objetivos econômicos iniciais.

Porém, apesar da iniciativa, a integração regional passou a enfrentar profundos e complexos obstáculos que colocaram em dúvida sua manutenção. Dentre esses obstáculos, estão a instabilidade econômica dos países; a assimetria de poder entre o Brasil e os outros membros;  a falta de eficácia das normas do Mercosul; e o desconhecimento e a falta de interesse da sociedade civil pelo bloco.

Apesar de todas as crises enfrentadas pelo Mercosul, o saldo fornecido pelo bloco não deixa de ser positivo na balança brasileira. Entretanto, o Mercosul não recuperou a mesma importância que tinha no início de sua formação para a economia do Brasil. Isso não significa que deixou de ser importante, mas  seu peso foi transferido da macroeconomia para a microeconomia, isto é, tem maior peso para as empresas brasileiras no âmbito interno. O lucro do Brasil com a Organização gera desconfortos diversos entre os membros, o que não justifica as medidas protecionistas adotadas pelos países, que violam regras explícitas do Mercosul e implícitas do comércio internacional.


Diante dos aspectos históricos, econômicos e políticos apresentados acerca do Mercosul, surgiram questões, tais como o futuro do bloco: como o Mercosul poderia concretizar-se como união aduaneira? Como as crises econômicas enfrentadas individualmente pelos países-membros afetam uns aos outros e o bloco como um todo? Possíveis erros e acertos na constituição jurídica do  bloco entre outras questões foram debatidas na reunião de estudo, permitindo alguns esclarecimentos, inclusive sobre a atuação do Brasil em âmbito regional, e o levantamento de novos questionamentos passíveis de estudo, tanto no GEO, quanto individualmente.

Autoria do texto: Mariana Lo Prete. 


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