A
nova ordem mundial vigente, hoje, permite aos países adicionarem às suas
políticas nacionais uma pauta mais regionalista que abrange aspectos que
transcendem o campo puramente econômico. Podemos ver com clareza este fenômeno
ocorrendo na América do Sul a partir dos anos 2000, onde a motivação da
cooperação regional por meio do intercambio econômico como elemento chave,
conforme ocorria nos anos 1990, passa a ter um novo enfoque, com uma agenda
internacional mais pautada em assuntos sociopolíticos que visam atenuar as
assimetrias entre os países da região.
O
processo de cooperação sul-americano passa, então, a buscar uma maior autonomia
nacional, através do fortalecimento de mecanismos comuns regionais, buscando
articular um espaço econômico e político sul‑americano, preservando os espaços nacionais de
formulação de política. Contudo, logicamente, para que tal ação ocorra, os
processos econômicos não podem ser desconsiderados; no entanto, estes são agora
encarados através de uma perspectiva mais ampla, que abarca novos problemas e,
ao mesmo tempo, novas formas de encará-los. A partir de tais ideias e propostas
que surge a União de Nações Sul Americanas (UNASUL), em 2008, com o propósito
de institucionalizar um espaço de coordenação política e econômica entre os
Estados sul-americanos, abarcando iniciativas de integração já existentes –
MERCOSUL, CAN, dentre na America do Sul –, tornando-se, desta forma, uma
espécie de “espinha dorsal” do processo de cooperação na América do Sul.
A
proposta da UNASUL traz à tona o ideal de integração regional em seu sentido
mais completo, envolvendo projetos de infraestrutura e propostas de melhoria
para os mais diversos assuntos: justiça social, democracia, tratamento
igualitário aos países membros, integração
política, econômica,
cultural, reparação de
dificuldades peculiares a
cada nação, politicas
de preservação ambiental, políticas energéticas, de segurança, dentre
outros. Possui sua estrutura composta pelo Conselho de Chefes de Estado e de
Governo, Conselho de Ministros de Relações Exteriores e o Conselho de
Delegados. Recentemente, formou-se também o Conselho de Defesa Sul-Americano.
Além destes órgãos importantes há também o Banco do Sul, que servirá como um
instrumento de fomento do desenvolvimento da região do apoio financeiro a
projetos de infraestrutura e a integração das cadeias produtivas. Este último também
prevê a possibilidade futura de um sistema monetário sul‑americano, além da
criação de fundos para o desenvolvimento social e de emergência em caso de
calamidades naturais.
Todavia, é necessário avaliar mais
profundamente a UNASUL, e refletir em que medida esta instituição
representaria uma nova
dimensão do processo de
cooperação regional e, ao mesmo tempo, da política brasileira em relação à
América do Sul. Em outras palavras, se é perceptível na UNASUL a existência de
uma lógica que compatibilize a ideia de autonomia com o objetivo principal da
cooperação, ou seja, o comprometimento dos Estados com o processo de
fortalecimento dos aspectos setoriais de integração. Apesar de o Brasil manter
um grande papel de destaque na UNASUL, configurando-se não apenas como um dos
grandes financiadores da ação, mas também enquanto mediador de conflitos
políticos e promotor da ação em âmbito internacional, sua posição marcante no
órgão traz à tona certos certas visões conflitantes de países menores, que
enxergam o desempenho brasileiro como uma forma do país se promover
individualmente em âmbito internacional através de um espaço comum regional.
Além
disso, é possível notar que a percepção dos agentes é afetada pelo processo de
integração regional em ao menos em 3 dimensões decisivas, de acordo com Nye: a
percepção de distribuição de benefícios, a percepção de custos do processo de
integração regional, e a percepção comum acerca de fatores externos. Todos
estes pontos destacados, quando avaliado em um espaço de interação estatal como
o proposto pela UNASUL, tomam dimensões ainda mais profundas devido à própria
assimetria regional da América do Sul, a qual faz as crises e instabilidades
regionais gerem diferentes percepções aos atores envolvidos, subtraindo a
cooperação regional. Desta forma, concluímos que o processo cooperativo nesta região tende a ser mais
difícil, visto as assimetrias estruturais e instabilidades internas de seus
membros, e encontra-se em fase germinativa, onde a geração de condições básicas
para sua sustentação ainda estão sendo criadas, com a dinâmica proposta por
certos mecanismos, como a UNASUL.
Autoria do texto: Raquel Cardoso Ferreira Rocha, graduanda de Relações Internacionais da UNESP de Marília.
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