domingo, 9 de novembro de 2014

Blocos Econômicos: UNASUL


A nova ordem mundial vigente, hoje, permite aos países adicionarem às suas políticas nacionais uma pauta mais regionalista que abrange aspectos que transcendem o campo puramente econômico. Podemos ver com clareza este fenômeno ocorrendo na América do Sul a partir dos anos 2000, onde a motivação da cooperação regional por meio do intercambio econômico como elemento chave, conforme ocorria nos anos 1990, passa a ter um novo enfoque, com uma agenda internacional mais pautada em assuntos sociopolíticos que visam atenuar as assimetrias entre os países da região.

O processo de cooperação sul-americano passa, então, a buscar uma maior autonomia nacional, através do fortalecimento de mecanismos comuns regionais, buscando articular um espaço econômico e político sulamericano, preservando os espaços nacionais de formulação de política. Contudo, logicamente, para que tal ação ocorra, os processos econômicos não podem ser desconsiderados; no entanto, estes são agora encarados através de uma perspectiva mais ampla, que abarca novos problemas e, ao mesmo tempo, novas formas de encará-los. A partir de tais ideias e propostas que surge a União de Nações Sul Americanas (UNASUL), em 2008, com o propósito de institucionalizar um espaço de coordenação política e econômica entre os Estados sul-americanos, abarcando iniciativas de integração já existentes – MERCOSUL, CAN, dentre na America do Sul –, tornando-se, desta forma, uma espécie de “espinha dorsal” do processo de cooperação na América do Sul.

A proposta da UNASUL traz à tona o ideal de integração regional em seu sentido mais completo, envolvendo projetos de infraestrutura e propostas de melhoria para os mais diversos assuntos: justiça social, democracia, tratamento igualitário aos países  membros,  integração  política, econômica,  cultural,  reparação  de  dificuldades  peculiares  a  cada  nação,  politicas  de preservação ambiental, políticas energéticas, de segurança, dentre outros. Possui sua estrutura composta pelo Conselho de Chefes de Estado e de Governo, Conselho de Ministros de Relações Exteriores e o Conselho de Delegados. Recentemente, formou-se também o Conselho de Defesa Sul-Americano. Além destes órgãos importantes há também o Banco do Sul, que servirá como um instrumento de fomento do desenvolvimento da região do apoio financeiro a projetos de infraestrutura e a integração das cadeias produtivas. Este último também prevê a possibilidade futura de um sistema monetário sulamericano, além da criação de fundos para o desenvolvimento social e de emergência em caso de calamidades naturais.

            Todavia, é necessário avaliar mais profundamente a UNASUL, e refletir em que medida esta  instituição  representaria  uma  nova  dimensão  do processo de cooperação regional e, ao mesmo tempo, da política brasileira em relação à América do Sul. Em outras palavras, se é perceptível na UNASUL a existência de uma lógica que compatibilize a ideia de autonomia com o objetivo principal da cooperação, ou seja, o comprometimento dos Estados com o processo de fortalecimento dos aspectos setoriais de integração. Apesar de o Brasil manter um grande papel de destaque na UNASUL, configurando-se não apenas como um dos grandes financiadores da ação, mas também enquanto mediador de conflitos políticos e promotor da ação em âmbito internacional, sua posição marcante no órgão traz à tona certos certas visões conflitantes de países menores, que enxergam o desempenho brasileiro como uma forma do país se promover individualmente em âmbito internacional através de um espaço comum regional.

Além disso, é possível notar que a percepção dos agentes é afetada pelo processo de integração regional em ao menos em 3 dimensões decisivas, de acordo com Nye: a percepção de distribuição de benefícios, a percepção de custos do processo de integração regional, e a percepção comum acerca de fatores externos. Todos estes pontos destacados, quando avaliado em um espaço de interação estatal como o proposto pela UNASUL, tomam dimensões ainda mais profundas devido à própria assimetria regional da América do Sul, a qual faz as crises e instabilidades regionais gerem diferentes percepções aos atores envolvidos, subtraindo a cooperação regional. Desta forma, concluímos que o processo cooperativo nesta região tende a ser mais difícil, visto as assimetrias estruturais e instabilidades internas de seus membros, e encontra-se em fase germinativa, onde a geração de condições básicas para sua sustentação ainda estão sendo criadas, com a dinâmica proposta por certos mecanismos, como a UNASUL.

Autoria do texto: Raquel Cardoso Ferreira Rocha, graduanda de Relações Internacionais da UNESP de Marília. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MALLMANN, M. I. Análise institucionalista da integração sul-americana. Civitas, 2010, v. 10 n. 1: 11-22.

MARIANO, M. P.; RAMANZINI J. H.; ALMEIDA, R. A. R. de. O Brasil e a Integração na América do Sul: Uma Análise dos Últimos Dez Anos (2003-2013). Relações Internacionais,  Lisboa ,  n. 41, mar.  2014 . Disponível em . Acessos em  20  nov.  2014.
MARTINS, J. R. O Brasil e a Unasul: um processo de construção de liderança e integração regional. Curitiba. 2011. Dissertação de mestrado em Sociologia. Universidade Federal do Paraná.


VIGEVANI, Tullo; VEIGA, João Paulo C.  and  MARIANO, Karina Lilia P.. Realismo versus globalismo nas relações internacionais. Revista Lua Nova. 1994, n.34, pp. 05-26.
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