quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Organização de Cooperação de Shangai (OCS)

Nas últimas reuniões de estudo, o GEO discutiu a Organização de Cooperação de Shangai (OCS). Já conhecia esta organização? Confira o resumo de um dos textos apresentados nas últimas semanas,  preparado atenciosamente por nós.



Resumo do texto de monografia “A Organização de Cooperação de Shangai e a Política Internacional Chinesa e Russa” de Gustavo Juliano Treis (pp. 23-43)

Marília Mingatti Machado1

A Organização de Cooperação de Shangai (OCS) foi criada em 2001 e tem apresentado resultados práticos que acabou por despertar a atenção da comunidade internacional. Ela se caracteriza como sendo uma Organização Internacional, intergovernamental e de caráter permanente proclamada por 6 países (Rússia, China, Uzbequistão, Kazaquistão, Kirguistão e Tadjiquistão), formada a partir do organismo dos “cinco de Shangai” (dentro os seis citados exceto o Uzbequistão), sendo que este se iniciou para aprofundar a confiança militar em regiões de fronteira onde desde então houve avanços consideráveis na redução do contingente militar nessas regiões e após isso foram surgindo então outras áreas a serem tratadas pelos “cinco de Shangai” que não fosse sobre segurança regional e assim criou-se então a Organização de Cooperação de Shangai que acaba por se caracterizar também por ter sido criada sem ter um objetivo único ou área exclusiva de atuação.

Dentre os países membros (6) e os países observadores (Irã, Paquistão, Índia e Mongólia) eles representam aproximadamente 40% da população mundial e até então a relação entre os países membros da OCS é caracterizada por ser pacífica e amigável. Porém dentre essas relações pacíficas, as menos desenvolvidas são as relações de integração, apesar de que a OCS tem planos de estabelecer uma área de livre comércio até o ano de 2020, sendo que parece improvável que a OCS chegue a um nível de integração como o da União Europeia (UE), tendo em vista que um de seus preceitos é manter a soberania do Estado.

A OCS possui então dois corpos permanentes, sendo eles um Secretariado em Pequim (com quatro grupos de apoio à suas decisões) e a Estrutura Anti-Terrorista Regional (RATS) em Tashkent, capital do Uzbequistão. A OCS vem tomando o interesse da comunidade internacional pela sua maneira mais prática e efetiva de adotar medidas do interesse de seus países membros, segundo Gustavo Juliano Treis, e devido à sua promessa desse desenvolvimento ser externalizado para todos os países, como por exemplo, o fato de o governo chinês estar sendo um grande promotor dessa política internacional por causa da sua boa fase econômica, e dessa forma a Índia, a Mongólia e o Irã também pretendem ser membros plenos desse organismo, mas de acordo com a OCS, a organização ainda não está aberta à entrada de novos membros, pois primeiro querem consolidar a Organização para depois expandi-la.

Com relação às implicações que a OCS terá sobre a Rússia e a China, Juliano Treis cita que segundo Vladimir Putin esta é a “mais bem sucedida aproximação sino-russa” e um “exemplo ao resto do mundo”. Porém essa aproximação desses dois gigantes políticos e com suas promissoras economias, a Rússia e a China também causam sério desconforto para outras estruturas hegemônicas, baseando-se até no fato do alto escalão do governo russo parecer considerar a OCS não apenas como Organização de Cooperação Regional, mas como um modelo-base para ser seguido pela comunidade internacional e que também estaria vinculado ao interesse sino-russo da reestruturação das Nações Unidas.

Dessa forma, a aliança sino-russa vem demonstrando grande importância para o futuro da política internacional, já que há projetos de médio e longo prazo assumidos pela China e pela Rússia que demonstram que essa aproximação sino-russa é um “caminho sem volta” e que começa a moldar o novo cenário internacional do século.

Muitas vezes a criação de agências internacionais representa uma influência de um país sobre uma região ou um grupo de países, havendo então uma estratégia de expansão das Agências Internacionais, fazendo com que se perceba que de certa forma a criação da OCS quer então é resguardar uma área livre da influência ocidental e que esta área esteja dentro da esfera de influência sino-russa, sob os aspectos político, econômico e militar, como ressalta Gustavo mencionando que já ocorreu exigência da OCS de definir um cronograma conclusivo para operações anti-terroristas no Afeganistão e a retirada das tropas norte-americanas na Ásia Central e, dentre essas bases uma foi obrigada a se retirar às pressas do Uzbequistão, fazendo assim com que os EUA tenham todos os motivos para se preocupar com sua influência futura na região.

Segundo Pinheiro Guimarães a segunda estratégia de preservação das estruturas hegemônicas de poder é a de incluir novos atores, sendo eles sócios menores, seja por conveniência tática ou pela necessidade de refletir novas realidades de poder, decorrentes da dinâmica internacional. Na área de Segurança a OCS propõe estabilidade aos governos dos países membros e o combate aos grupos contestatários internos e externos aos países e a Rússia também vem realizando exercícios militares juntamente com os países membros.

Quando o texto trata sobre a estratégia de geração de ideologias cita-se então o “Espírito de Shangai”, formado durante o processo dos “cinco de Shangai”, e baseado nos princípios da confiança e benefícios mútuos, igualdade, consultas mútuas, respeito às multiformes culturas e aspiração para articular o desenvolvimento, e no que diz respeito às relações externas a OCS não é um bloco fechado e não é dirigido de encontro a nenhum estado ou região. Segundo o autor o “Espírito de Shangai” pode ser caracterizado como a ideologia da ascendente hegemonia chinesa. Segundo Arrighi a liderança que é percebida como aquela que busca um interesse geral é o tipo de liderança que torna hegemônico o estado dominante e segundo Gramci essa liderança manifesta-se como liderança intelectual e moral, que segundo o autor, essas últimas duas lideranças parecem explicar bem os objetivos da ideologia do “espírito de Shangai”.

Segundo consta na monografia trabalhada para apoio ao estudo do Grupo de Estudos e Pesquisas em Organizações Internacionais (GEO)2 o objetivo da OCS é trazer um novo modelo de relações internacionais buscando a cooperação e o benefício mútuo deixando de lado os padrões da Guerra Fria e “forçando” os países periféricos a um alinhamento com alguma potência, dessa forma, nesse novo modelo os países se associam para a promoção da paz e o desenvolvimento sem se colocar contra outro bloco ou estado.

Com isso o autor faz a crítica de que a declaração da OCS, sobre o espírito de Shangai incorporar a aspiração compartilhada pela comunidade internacional de estabelecer a democracia nas Relações Internacionais, seja um pouco precipitada já que para se afirmar isso se pressupõe então que o modelo de democracia americano não conseguiu ser efetivamente estabelecido e também porque para um modelo ser adotado, antes ele tem que ser testado, ou seja, somente os frutos da OCS poderão dizer se esse espírito satisfaz mesmo as necessidades dos países ou se não é apenas uma declaração para tentar ganhar algum destaque.

Após isso o autor cita que o Embaixador Pinheiro Guimarães descreveu que os EUA teria utilizado o Japão como uma vitrine de prosperidade do modelo ocidental no oriente e então pode-se pensar assim que logo haverá a concretização do esforço sino-russo de tornar os quatro países da Ásia Central e os demais que se agregarem à OCS em uma vitrine do modelo oriental de desenvolvimento, apesar de ser difícil que uma aliança entre China e Índia dê certo, pois ambas estão crescendo velozmente fazendo com que haja assim uma rivalidade subjacente de poder.

A partir de então se inicia uma análise mais profunda sobre as implicações nas economias da Rússia e da China que merecem destaque importante pelo seu crescimento e suas perspectivas de futuro, e como é citado no texto que, para manter esse estrondoso crescimento a China terá alguns desafios como a devastação ambiental que o crescimento acelerado ocasiona, o envelhecimento da população, a falta de estabilidade social e política nas áreas rurais e a escassez de recursos energéticos para suprir toda a demanda chinesa, sendo que a OCS poderia então colaborar de forma direta para a solução dos dois últimos problemas e, para a Rússia, as perspectivas são semelhantes já que a OCS pode auxiliar em duas frentes para o fortalecimento da economia russa: como um mercado para a indústria bélica russa exportar seus equipamentos e como um mercado para os recursos energéticos russos. Ressalta-se o fato de que em Março de 2006 foram assinados 15 acordos bilaterais de cooperação entre Rússia e China, com clara ênfase no setor energético já que a Rússia é uma superpotência energética mundial.

Portanto para finalizar destaca-se que com isso os EUA adotam uma posição severa em relação à Rússia, entendendo que este país utiliza suas fontes energéticas como meio de “intimidação e chantagem” e, segundo Noam Clomsky os EUA continuarão a mover esforços para controlar este poder estratégico e também pelo fato de uma aliança entre a OCS e o Islã ser a possibilidade do “pesadelo final” do poderio norte-americano, sendo dessa forma a questão dos recursos energéticos o fator de maior relevância para a definição dos acontecimentos na política internacional nos próximos anos.


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Notas:

1 Graduanda do curso de Relações Internacionais na Unesp-FFC Marília e membro efetivo do Grupo de Estudos e Pesquisas em Organizações Internacionais (http://plsql1.cnpq.br/buscaoperacional/detalhepesq.jsp?pesq=6120166601512351)


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