sábado, 6 de dezembro de 2014

Organização de Cooperação de Xangai



Este artigo é um resumo de um trecho do livro "Organização para Cooperação de Xangai : Nova Ordem Geopolítica na Ásia", escrito por Rodrigo Borges Cardoso Charipov e Elena Charipova. O trecho que tratarei neste pequeno artigo e que foi discutido na Reunião de Estudos do GEO no dia 05 de Dezembro vai da página 150 até o final do livro.

Este trecho é divido em sete partes : Primeiramente, os autores fazem uma breve explicação sobre o histórico das relações diplomáticas sino-soviético desde a década de 50; Em segundo lugar, tratam da história da Organização de Cooperação de Xangai, desde o seu surgimento com os "Cinco de Xangai" até os dias atuais; Em terceiro lugar, tratam das metas da organização; Em quarto lugar, tratam das ações da Organização de Cooperação de Xangai na área de Segurança; Em quinto lugar, tratam das ações da Organização de Cooperação de Xangai na área Militar; Em sexto lugar, tratam das ações da Organização de Cooperação de Xangai na área da Economia; E, finalmente, em sétimo lugar, tratam das perspectivas para o futuro desta organização internacional.

            1) Histórico das Relações Sino Soviéticas

A década de 1950 foi marcada como a década de amizade entre o recém instalado governo comunista chinês e a União Soviética. Parte desta amizade provém do sucesso da Revolução Comunista na China e da proximidade ideológica, ao menos aparente, entre as duas nações. Posteriormente, na década de 1960, vemos que as relações entre os dois países tornam-se cada vez mais hostis devido à uma série de conflitos fronteiriços. Esta escalada de tensão culmina, em 1969, em conflito armado, essencialmente uma guerra não declarada, entre Pequim e Moscou. Após as escaramuças episódicas, as relações sino soviéticas mantiveram-se basicamente ruins durante toda a década de 1970. Neste período, ocorre o famoso episódio da viagem de Nixon à China, e uma clara opção chinesa, dentro da lógica da Guerra Fria, pela aliança política com os Estados Unidos da América.

As relações diplomáticas entre os dois países só seriam retomadas em 1989, com iniciativa de Gorbatchev. Mas é somente em 1991, ano da ruptura da União Soviética, que ambos os países assinam tratado final reconhecendo limites fronteiriços e é a partir deste momento que podemos ver uma crescente positiva no que se trata das relações entre Pequim e Moscou.

            2) História da Organização de Cooperação de Xangai

A Organização de Cooperação de Xangai foi formalmente criada em 2001. Porém, seus antecedentes datam de 1996, ano da primeira reunião entre Rússia, China, Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão. Esta reunião, que ocorreu em Xangai, cunhou o termo "Os Cinco de Xangai". Neste primeiro encontro, celebrou-se um acordo sobre a "estabilidade regional, amizade fronteiriça e paz". Embora Os Cinco de Xangai não formassem uma organização internacional propriamente dita, eles continuaram se encontrando anualmente até 2001. O teor das discussões destes encontros variou muito, porém sempre se tratou da estabilidade na Ásia Central e na "simpatia fronteiriça".

Com a crescente importância destas reuniões, viu-se a necessidade de estabelecer uma organização internacional propriamente dita, que tivesse meios e autoridade para fazer valer as resoluções decididas nos encontros. Dessa forma, a Organização para Cooperação de Xangai, ou então a Organização de Cooperação de Xangai, foi criada em 2001. Neste mesmo ano, oficializou-se a entrada do Uzbequistão na organização, completando o número de países-membros que continua o mesmo até hoje.

Desde 2001 até os dias atuais, a Organização para Cooperação de Xangai vem realizando reuniões anuais. Talvez o aspecto mais chamativo desta peculiar Organização Internacional seja a variedade de assuntos de que ela trata. Em treze anos de existência, temas aparentemente desconexos foram tratados nas reuniões da O.C.X. Com um leque de assuntos que varia de Economia, Crise Financeira e Desemprego até Guerra ao Terror, Separatismo e Extremismo, a Organização para Cooperação de Xangai detém uma das agendas mais variadas do planeta, senão a mais variada. Os próprios autores fazem a menção de que imaginam que inexiste outra O.I que consiga juntar tantos assuntos na mesma agenda de discussão.

            3) Metas da Organização

Neste item, intitulado "Metas da Organização", os autores, na verdade, tratam muito das características da Organização de Cooperação de Xangai.

Como expresso na Carta de Princípios, a O.C.X se esmera pelo combate ao que ela chama dos "Três Males", nominalmente, o terrorismo, o extremismo e o separatismo. Contudo, como já vimos, a agenda de discussão desta O.I é tão variada que o combate aos três males ocupa não um lugar único nas suas proposições, mas apenas um lugar de destaque, entre outros muitos assuntos.

Porém, de fato, o combate ao terrorismo parece ser a principal preocupação da O.C.X. A Estrutura Antiterrorista Regional (RATS) é o órgão mais famoso da Organização de Cooperação de Xangai. Este órgão tem como finalidade o treinamento de unidades contra terroristas e ações anti terroristas nos seus países membros.

Os autores também lembram que a Organização para Cooperação de Xangai é a primeira organização regional de que a China faz parte. Este fato é importante pois pode demonstrar uma nova guinada na política externa chinesa, talvez o início de uma nova era na qual a China pode se empenhar mais nas relações com seus vizinhos imediatos na Ásia.

            4) Ações da Organização de Cooperação de Xangai na área de Segurança

Como já tratamos neste pequeno resumo, a principal ação da Organização de Cooperação de Xangai na área de Segurança é a luta contra o terrorismo. Nesta luta, tem papel central a Estrutura Antiterrorista Regional (RATS).

É importante ressaltarmos também que os países membros da Organização de Cooperação de Xangai tentam promover uma nova concepção de Guerra ao Terror. Desde os ataques do 11 de Setembro, a principal resposta ao terrorismo tem sido a intervenção militar direta. A O.C.X possui uma nova concepção, talvez mais madura, de guerra ao terror. Seus países membros defendem uma luta antiterrorista multivetorial, que não envolva apenas a intervenção militar direta, mas também um estudo cultural, econômico e educacional do problema. Até que ponto isto é uma falácia que os países membros da O.C.X pregam simplesmente para ocultar ações autoritárias e intervenções militares diretas nos seus territórios é ponto incerto.

            5) Ações da Organização de Cooperação de Xangai na área Militar

De fato, o princípio que uniu primeiramente os países que hoje fazem parte desta O.I foi a questão militar. A primeira reunião, em 1996, foi, essencialmente, um acordo para a estabilidade da região. Desde então, a cooperação militar entre os países membros vem sendo um dos pilares de ação da Organização de Cooperação de Xangai.

Contudo, os autores são muito cuidadosos em ressalvarem que não é intuito desta O.I formar um bloco militar unitário, como a OTAN, mas somente trabalhar na questão da estabilidade regional e na cooperação entre exércitos dos países membros.

É claro, entretanto, a repulsa dos países membros da O.C.X pela presença militar de potências estrangeiras na região. Como se pode ver, na reunião de 2004, os países membros recomendaram a retirada das tropas americanas do Afeganistão. Conclui-se que os países membros da O.C.X não desejam formar bloco militar unitário, porém se unem no que tange à repulsa à presença militar de potências estrangeiras na Ásia.

Ainda no tocante da área militar, os autores relembram a existência da Zona Livre de Armas Atômicas. Esta zona compreende uma área na qual é proibido qualquer tipo de teste, produção ou pesquisa sobre bombas atômicas. Tal área engloba os países do Uzbequistão, Cazaquistão, Tadjiquistão e Quirgistão.

            6) Ações da Organização de Cooperação de Xangai na área da Economia

Na área da economia, vemos a principal divergência entre Rússia e China dentro da O.C.X. A China pressiona pela abertura dos mercados dos países da Ásia Central, visando, como fim último, a criação de um mercado comum. Os dirigentes chineses enxergam nestes países da Ásia Central possíveis mercados consumidores para seus produtos industrializados. Contudo, a Rússia ainda exerce grande influência sobre estes países, que são ex-repúblicas soviéticas, e é oposta à liberalização proposta pela China, uma vez que tem medo da concorrência chinesa.

Apesar desta incongruência, os países membros da O.C.X possuem vários pontos em comum no que tange à Economia. Os autores apresentam dois destes : Os Recursos Energéticos e Transportes. Os países da Ásia Central são ricos em recursos energéticos, nominalmente, gás natural e petróleo, e a Organização de Cooperação de Xangai acaba sendo uma boa plataforma de investimentos nesta área. O outro ponto comum econômico é a área dos transportes. Apesar da Ásia Central ser rica em recursos energéticos, é uma área pobre em infraestrutura. Novamente, a O.C.X acaba por ser uma ótima plataforma de investimentos na área dos transportes. Quase desnecessário dizer, o principal país fomentador de tais projetos é a China, que, em 2009, ofereceu um fundo de US$900 milhões que serve para financiar projetos de infraestrutura na região.

            6) Perspectivas para o futuro

O ponto central nas perspectivas para o futuro da Organização de Cooperação de Xangai é a entrada de novos membros. Até agora, apenas o Irã manifestou desejo de adentrar a organização, porém esta negou sua admissão, uma vez que o país do Irã tem inúmeras desavenças com a ONU e com Washington, e o conselho da O.C.X não deseja colocar mais peso nesta balança de poder. Outros potenciais candidatos à admissão são Índia e Paquistão. Contudo, os autores avaliam que a entrada destes dois países é pouco provável, uma vez que eles nutrem grandes problemáticas entre si, principalmente a questão da Caxemira.

Por fim, podemos dizer que a grande argamassa que une os países da O.C.X e, por fim, lhe garante sentido, é o desejo por uma zona livre da influência dos Estados Unidos da América, a Ásia Central. É importante levantar este ponto, uma vez que isto seja garantido, a aliança sino russa continuará firme e forte, assim mantendo a liga entre os países da O.C.X?

Autoria do texto: Matheus de Freitas Cecílio


Texto : CHARIPOV, Rodrigo; CHARIPOVA, Elena; 2010. Pág. 150 - 164. " Organização para Cooperação de Xangai : Nova Ordem Geopolítica na Ásia" Disponível em < https://attachment.fbsbx.com/file_download.php?id=375496812608664&eid=ASvEu6uRthypu5ZpQ9FLx2HPysmW5St5FO9BGWTzwF3MgHnjyHbqgBXB-M8gqGSTS-c&inline=1&ext=1417891112&hash=ASumG5fzpNCTrXdm >
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